Ás vezes, nas férias, apareciam lá por casa uma espécie de parentes que também o chamavam de avô. Mas ela lá tinha os seus motivos e não se sentia ameaçada no seu posto. “Aquele Avô” era mesmo só dela – como se lho tivessem oferecido quando ela nasceu.
Escorpião, nascido a 8 de Novembro, da velha guarda, do tempo em que palavra dada era escritura feita. Zangava-se muito. Mas com a neta não.
Não... quer dizer... tudo tem limites. Quando se via o noticiário lá em casa o lugar preferido da menina era em frente do avô na sua cadeirinha. Como qualquer criança, volta e meia ruído era feito, conversa iniciada, enfim. E aí, pois, o chamado “côco” – mão fechada do avô, de cima pra baixo. Hum... devia doer. Mas ela também não reclamava. Sabia que tinha merecido. Além de que a petiz já tinha o seu orgulho. Mais choraria por uma queda dada do que por uma palmada merecida!
Sempre que chegava a casa era pergunta sagrada: "onde está a piquena? A piquena já acordou? A piquena já almoçou? A piquena está em casa? É preciso ir buscar a piquena?"
Os pais da Maria trabalhavam e esta ficava aos cuidados dos avós.
A seguir ao almoço ouvia dizer “ – vou ali e já volto”
Espera....
Já lá estava ela.
Aconchegada, num cantinho da cama dos avós, à espera do avô – pois sabia bem sagrado o horário para dormir a sesta. Mas qual sesta!!!!! Assim se passavam muitas sestas que a Maria carinhosamente traz hoje na memória – a contar histórias de quando também ele era “piqueno” e tinha pais e avós e brincava e ia à escola – o que à Maria fazia confusão.
Ora, como é que uma avô já velhinho teve pais, avós, brincou e ainda foi à escola????
E afinal, nos tempos em que este avô contava histórias a esta neta, era ainda um avô tão novo...
A Maria foi crescendo, e o avô sempre a levou para todo o lado – como um adereço – quase de decoração! A avó dizia mesmo que se sentia mais bonita quando levava a sua neta! Avós mais babados não existiam!!!
Lá em casa ainda aparecia rapaziada para aprender solfejo e algum instrumento musical.
Mas a pupila neta já queria ensinar o avô a solfejar e, foi necessário uma professora particular, isenta dos mimos de família. Mal começado o b-a-ba da escola primária, levou com o semelhante em música.
E toma lá que é de pequenino que se torce o pepino? O pior é que se diz que esse pepino nasceu mesmo torcidinho...
Ah!
Menos o nariz – que mais direitinho e arrebitadinho não podia estar!
Ainda hoje ela se pergunta quem educou quem! Houve muita ditadura, e alguns golpes de estado a dar.
Ora vejamos um exemplo.
Por sua infelicidade a Maria desenvolveu alergias quando iniciou a escola primária. Criada no campo e sempre habituada a ter animais de estimação – desde que não tivessem bico e penas que a irritavam! – viu-se de repente proibida pelo médico de ter qualquer coisa como cão e gato – era pois alérgica. A isso, a pó e uma data de coisas que aqui não importa.
Há que contornar o sistema.
Tentou ter coelhos.
Morriam. Eram infelizes dentro das gaiolas. Não dava para brincar com eles. Não funcionava.
Ia para casa das vizinhas brincar com os gatinhos alheios – não funcionava – as alergias depois atacava – pois... mas que se quer da cabeça de uma criança????
Até que.... a cabra de um primo e vizinho ia ter bebés!!!!!! Isso mesmo! Vou ter uma cabrinha!
"Não e não e não!" – discurso em casa
Mas o facto é que um dia a Maria chegou a casa com a cabrinha ao colo – ainda sujinha!
E não foi devolvida – primeira batalha ganha!!!!
Foi criada de biberon, dormia na loja da casa, debaixo de um cestinho, com uma manta a servir de caminha, e quando a menina chegava da escola tinha uma cabra/cão com quem brincar! Sim, que os comportamentos são mais semelhantes do que se pode imaginar! Foi o avô que lhe deu o nome de Beá! Era toda branca – Linda!
A Beá cresceu e um dia o Avô teve que levá-la para outras pastagens, para mais longe de casa.
Então a Maria já não a via todos os dias – mas a natureza precisava seguir o seu rumo. A Beá precisava namorar, ter os seus meninos, alguns que Maria conheceu, enfim. Lá se conformou com a explicação e a despedida. Mas podia ir vê-la quando queria. Tinha era que dar cordas aos sapatos e ir por onde carros não passam.
E que bonito que era.
Aquela paisagem era digna de um conto de fadas.
Às vezes a Maria levantava-se muito cedo, lá combatia o sono e ia com o avô ainda antes de ir para a escola. Parecia que planava no meio da bruma.
Ao longo da Ribeira das Lages, chamava-se esse caminho: “O Caminho da Gruta”, porque a vegetação de tão densa, se fechava sobre si, por cima entrelaçada, em forma de túnel, e mesmo com sol a pique, não conseguia lá penetrar- a diferença era a bruma que com a típica humidade mesmo de Verão teimava em aparecer de manhã, como uma senhora que caminha ao largo e arrasta um longo manto branco.
Essa bruma densa dava-lhe um ar algo de fantasmagórico, de fantástico, de irreal, de assustador.
E a Maria perguntava . “ – O avô, não tem medo de passar aqui sozinho??? E se aqui aparece alguma coisa???”, ele respondia, “ – Mas que coisa filha?”....”- Não sei... alguma coisa...”
Andava ela na idade ainda do fantástico, mas também não se sabia explicar! ou não queria...
O chão que pisavam era de terra, pedra e musgo – tudo isto pela manhã dava um cheiro de terra molhada, de terra sadia, cores frescas, traiçoieiras no entanto... pé mal colocado e... vai desta! O chamado "bate-cu" ! Lema do avô – nunca tirar o pé de trás sem o da frente estar bem seguro” – e de verdade que raramente o avô caía por muito ruím que fosse o piso por onde andasse.
Passados alguns anos, já a menina feita mulherzinha tinha autonomia para ir ver a sua Beá sozinha e durante o dia – mas nada disso se comparava ao encanto de acordar de madrugada, pela mão/companhia querida daquele único avô, e fazer aquele percurso fantasmagórico no meio da bruma, que arrasta a imaginação mais além, sempre mais além.
Maria dava por si, quando faziam a caminhada em silêncio, a cogitar se o avô também sentiria essa magia que ela sentia, essas presenças não presentes que ela não via nem ouvia, mas que parecia quererem falar com ela.
E quando ele fazia esse percurso só? não tinha medo? Ou de facto tinha companhias que por causa dela não apareciam? – onde a imaginação de uma criança a leva! Não tem, de facto, limites...
E quando Maria ia também vindimar, para terrenos de rocha basáltica, onde pé aqui -pé acolá, a pedra rolava debaixo dos pés. Já a neta grandita era levada ao colo por esse avô, para um muro de pedra – também de basalto (não havia outra) mais seguro, não fosse a menina cair e magoar-se.
Enfim...e sem fim.
Foram tantas as histórias e aventuras que esses dois viveram.
E como se entendiam bem em silêncio.
A Maria, durante as suas férias muitas horitas passava ao lado do seu avô, e de muitas coisas se riam os dois sem ser necessário troca de palavras - às vezes levantavam o sobrolho esquerdo – herança do avô à neta! Era o suficiente para saberem que estavam no mesmo comprimento de onda!
Mas...mais uma vez, nem tudo se herda por sangue, e a velha viola da terra la está, a precisar de um bom restauro, mas não tem quem lhe toque. Já não tem o artista da boa e velha chamarrita para ensinar os acordes e a batida da viola – má cabeça da neta que não soube aproveitar – “casa de ferreiro...”
Mas não há nenhuma história de uma neta que compense histórias de um Avô.
Ela não tem tristeza. Pelo contrário. Teve e tem a felicidade de ter sido neta única de um grande AVÔ.
Por certo, quantos mais anos passarem, mais saudades terá, porque esse Avô estará sempre vivo na sua memória e na de quem o conheceu.
Pra mais que a Maria herdou algo muito forte - também destesta despedidas.
2 comentários:
oi aidinha... mesmo sem grande tempo e inspiração para escrever - aqui fica o meu desejo que estes trilhos que agora percorres sejam cminho seguro a um destino querido...
... já sabes que poderás contar comigo como companheiro de viagem.
R.
Ter um amigo como tu como companheiro de viagem, é garantia de segurança e conforto na caminhada.
Esta teia de protecção mútua que nos abriga e que nos mata a sede com a gotas de água que deixa passar.
Aquele abraço.
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