quinta-feira, 22 de novembro de 2007

Era uma vez...

Era uma vez, uma menina de seu nome Maria e que tinha um avô. Daqueles Avós muito dignos do nome AVÔ e que ela sempre se lembra de o ter. Era dela, só dela e não o dividia com ninguém.

Ás vezes, nas férias, apareciam lá por casa uma espécie de parentes que também o chamavam de avô. Mas ela lá tinha os seus motivos e não se sentia ameaçada no seu posto. “Aquele Avô” era mesmo só dela – como se lho tivessem oferecido quando ela nasceu.

Lembra-se dele grande, com uma barriga proeminente, uma Senhora Dona Barriga. E a menina dizia “ – O avô não precisa de sentar-se à mesa para comer! Pode pôr o prato em cima da barriga que ele não cai!” E ele não se zangava!

Escorpião, nascido a 8 de Novembro, da velha guarda, do tempo em que palavra dada era escritura feita. Zangava-se muito. Mas com a neta não.

Não... quer dizer... tudo tem limites. Quando se via o noticiário lá em casa o lugar preferido da menina era em frente do avô na sua cadeirinha. Como qualquer criança, volta e meia ruído era feito, conversa iniciada, enfim. E aí, pois, o chamado “côco” – mão fechada do avô, de cima pra baixo. Hum... devia doer. Mas ela também não reclamava. Sabia que tinha merecido. Além de que a petiz já tinha o seu orgulho. Mais choraria por uma queda dada do que por uma palmada merecida!

Sempre que chegava a casa era pergunta sagrada: "onde está a piquena? A piquena já acordou? A piquena já almoçou? A piquena está em casa? É preciso ir buscar a piquena?"

Os pais da Maria trabalhavam e esta ficava aos cuidados dos avós.

A seguir ao almoço ouvia dizer “ – vou ali e já volto”
Espera....
Já lá estava ela.
Aconchegada, num cantinho da cama dos avós, à espera do avô – pois sabia bem sagrado o horário para dormir a sesta. Mas qual sesta!!!!! Assim se passavam muitas sestas que a Maria carinhosamente traz hoje na memória – a contar histórias de quando também ele era “piqueno” e tinha pais e avós e brincava e ia à escola – o que à Maria fazia confusão.

Ora, como é que uma avô já velhinho teve pais, avós, brincou e ainda foi à escola????

E afinal, nos tempos em que este avô contava histórias a esta neta, era ainda um avô tão novo...

A Maria foi crescendo, e o avô sempre a levou para todo o lado – como um adereço – quase de decoração! A avó dizia mesmo que se sentia mais bonita quando levava a sua neta! Avós mais babados não existiam!!!

Assim, foi a vida da menina, um vendaval cultural, principalmente de música, que se alevantou!

Lá em casa ainda aparecia rapaziada para aprender solfejo e algum instrumento musical.

Mas a pupila neta já queria ensinar o avô a solfejar e, foi necessário uma professora particular, isenta dos mimos de família. Mal começado o b-a-ba da escola primária, levou com o semelhante em música.

E toma lá que é de pequenino que se torce o pepino? O pior é que se diz que esse pepino nasceu mesmo torcidinho...

Ah!

Menos o nariz – que mais direitinho e arrebitadinho não podia estar!

E assim foi que mais ou menos torcida, uns pais e uns avós tentaram, a muito custo educar uma menina nascida a 22 de Novembro, da bela casta de 1973.

Ainda hoje ela se pergunta quem educou quem! Houve muita ditadura, e alguns golpes de estado a dar.

Ora vejamos um exemplo.

Por sua infelicidade a Maria desenvolveu alergias quando iniciou a escola primária. Criada no campo e sempre habituada a ter animais de estimação – desde que não tivessem bico e penas que a irritavam! – viu-se de repente proibida pelo médico de ter qualquer coisa como cão e gato – era pois alérgica. A isso, a pó e uma data de coisas que aqui não importa.

Há que contornar o sistema.

Tentou ter coelhos.

Morriam. Eram infelizes dentro das gaiolas. Não dava para brincar com eles. Não funcionava.

Ia para casa das vizinhas brincar com os gatinhos alheios – não funcionava – as alergias depois atacava – pois... mas que se quer da cabeça de uma criança????

Até que.... a cabra de um primo e vizinho ia ter bebés!!!!!! Isso mesmo! Vou ter uma cabrinha!

"Não e não e não!" – discurso em casa

Mas o facto é que um dia a Maria chegou a casa com a cabrinha ao colo – ainda sujinha!

E não foi devolvida – primeira batalha ganha!!!!

Foi criada de biberon, dormia na loja da casa, debaixo de um cestinho, com uma manta a servir de caminha, e quando a menina chegava da escola tinha uma cabra/cão com quem brincar! Sim, que os comportamentos são mais semelhantes do que se pode imaginar! Foi o avô que lhe deu o nome de Beá! Era toda branca – Linda!

A Beá cresceu e um dia o Avô teve que levá-la para outras pastagens, para mais longe de casa.

Então a Maria já não a via todos os dias – mas a natureza precisava seguir o seu rumo. A Beá precisava namorar, ter os seus meninos, alguns que Maria conheceu, enfim. Lá se conformou com a explicação e a despedida. Mas podia ir vê-la quando queria. Tinha era que dar cordas aos sapatos e ir por onde carros não passam.

E que bonito que era.

Aquela paisagem era digna de um conto de fadas.

Às vezes a Maria levantava-se muito cedo, lá combatia o sono e ia com o avô ainda antes de ir para a escola. Parecia que planava no meio da bruma.

Ao longo da Ribeira das Lages, chamava-se esse caminho: “O Caminho da Gruta”, porque a vegetação de tão densa, se fechava sobre si, por cima entrelaçada, em forma de túnel, e mesmo com sol a pique, não conseguia lá penetrar- a diferença era a bruma que com a típica humidade mesmo de Verão teimava em aparecer de manhã, como uma senhora que caminha ao largo e arrasta um longo manto branco.

Essa bruma densa dava-lhe um ar algo de fantasmagórico, de fantástico, de irreal, de assustador.

E a Maria perguntava . “ – O avô, não tem medo de passar aqui sozinho??? E se aqui aparece alguma coisa???”, ele respondia, “ – Mas que coisa filha?”....”- Não sei... alguma coisa...”

Andava ela na idade ainda do fantástico, mas também não se sabia explicar! ou não queria...

O chão que pisavam era de terra, pedra e musgo – tudo isto pela manhã dava um cheiro de terra molhada, de terra sadia, cores frescas, traiçoieiras no entanto... pé mal colocado e... vai desta! O chamado "bate-cu" ! Lema do avô – nunca tirar o pé de trás sem o da frente estar bem seguro” – e de verdade que raramente o avô caía por muito ruím que fosse o piso por onde andasse.

Passados alguns anos, já a menina feita mulherzinha tinha autonomia para ir ver a sua Beá sozinha e durante o dia – mas nada disso se comparava ao encanto de acordar de madrugada, pela mão/companhia querida daquele único avô, e fazer aquele percurso fantasmagórico no meio da bruma, que arrasta a imaginação mais além, sempre mais além.

Maria dava por si, quando faziam a caminhada em silêncio, a cogitar se o avô também sentiria essa magia que ela sentia, essas presenças não presentes que ela não via nem ouvia, mas que parecia quererem falar com ela.

E quando ele fazia esse percurso só? não tinha medo? Ou de facto tinha companhias que por causa dela não apareciam? – onde a imaginação de uma criança a leva! Não tem, de facto, limites...

E quando Maria ia também vindimar, para terrenos de rocha basáltica, onde pé aqui -pé acolá, a pedra rolava debaixo dos pés. Já a neta grandita era levada ao colo por esse avô, para um muro de pedra – também de basalto (não havia outra) mais seguro, não fosse a menina cair e magoar-se.

Enfim...e sem fim.

Foram tantas as histórias e aventuras que esses dois viveram.

E como se entendiam bem em silêncio.

A Maria, durante as suas férias muitas horitas passava ao lado do seu avô, e de muitas coisas se riam os dois sem ser necessário troca de palavras - às vezes levantavam o sobrolho esquerdo – herança do avô à neta! Era o suficiente para saberem que estavam no mesmo comprimento de onda!

Mas...mais uma vez, nem tudo se herda por sangue, e a velha viola da terra la está, a precisar de um bom restauro, mas não tem quem lhe toque. Já não tem o artista da boa e velha chamarrita para ensinar os acordes e a batida da viola – má cabeça da neta que não soube aproveitar – “casa de ferreiro...”

Mais tarde, a Maria tentou compensar um bocadinho o avô a contar-lhe como era a sua vida em Lisboa,

Mas não há nenhuma história de uma neta que compense histórias de um Avô.

A Maria desta história completa hoje 34 anos e, de certeza que tem muitas saudades das histórias e da companhia daquele Avô.

Ela não tem tristeza. Pelo contrário. Teve e tem a felicidade de ter sido neta única de um grande AVÔ.

Por certo, quantos mais anos passarem, mais saudades terá, porque esse Avô estará sempre vivo na sua memória e na de quem o conheceu.

Pra mais que a Maria herdou algo muito forte - também destesta despedidas.

2 comentários:

angel_of _dust disse...

oi aidinha... mesmo sem grande tempo e inspiração para escrever - aqui fica o meu desejo que estes trilhos que agora percorres sejam cminho seguro a um destino querido...

... já sabes que poderás contar comigo como companheiro de viagem.

R.

Trilhos-de-Basalto disse...

Ter um amigo como tu como companheiro de viagem, é garantia de segurança e conforto na caminhada.
Esta teia de protecção mútua que nos abriga e que nos mata a sede com a gotas de água que deixa passar.
Aquele abraço.