sábado, 3 de novembro de 2007

Eis a explicação


Ora, e nada mais porque ser mulher, e porque a curiosidade matou o gato.... e em inglês " curiosity killed the cat, but happyness brought it back" - pois é...
os portugas esquecem sempre algo...
e assim, regressei feliz, porque encontrei, da minha pesquiza internáutica, o que aqui queria explicar o porquê do nome do meu blog e o porquê da sua formação.

Fui nada mais que encontrar num texto publicado no Diário Insular, datado de 15 de Fevereiro de 2004 - ora, mais nada - uns visionários! Já sabiam que mais alguém iria querer explorar este tema e quem melhor que mais uma filha desse magma solidificado durante séculos. (Insiro aqui uma foto para aqueles a quem, sem ofensa) a vida não deu oportunidade de ver o que é uma carroça ou um carro de bois.

Passo assim a transcrever na íntegra - é longo, mas vale a paciência...dos mais pacientes!

"Na Canada da Fonte do Cão, na freguesia de S. Brás, entre terrenos baldios e flora endémica, repousam os vestígios do caminho mais primitivo da ilha Terceira. (uma notinha aqui do bogler - é que no MEU Pico também os há... mas enfim... o jornal é da Terceira e já é bom haver alguém que escreva! ) Aqui se encontra um dos últimos trilhos de carros de bois ainda intactos. Ao longo de uma extensão de cerca de duzentos metros, descobrem-se as relheiras, profundos sulcos na pedra basáltica, resultantes da passagem contínua desse primeiro veículo de trabalho. Mas como se formaram as relheiras? Brás Manuel Pereira Barcelos, dirigente do Agrupamento 713 do Corpo Nacional de Escutas, dá-nos a resposta.

A zona do Baldio, na freguesia de S. Brás, esconde um dos mais antigos tesouros da ilha Terceira. Um testemunho de séculos de vivência insular. Na Canada da Fonte do Cão, entre terrenos baldios e flora endémica, repousam os vestígios do caminho mais primitivo da ilha de Jesus, o único que manteve até hoje as suas características originais. Aqui se encontra o último dos trilhos de carros de bois ainda intactos. Ao longo de uma extensão de cerca de 200 metros descobrem-se as relheiras, profundos sulcos na pedra basáltica, resultantes da passagem contínua desse primeiro veículo de transporte terceirense.
Mas, sendo o basalto uma rocha bastante resistente, o que levou à formação destas relheiras, algumas com mais de um palmo de profundidade e de diversas larguras? Brás Manuel Pereira Barcelos, dirigente do Agrupamento 713 do Corpo Nacional de Escutas (CNE), descobriu a resposta.

Uma mania do povo


Brás Barcelos era ainda criança quando conheceu as Relheiras do Baldio. No tempo em que o pão ainda era cozido em casa, ia com o pai aos baldios buscar lenha para o forno. Pelo caminho, eram muitos os trilhos visíveis, a maioria dos quais actualmente já desaparecidos, devido à construção de novas estradas.
Contudo, foi há cerca de dez anos que começou a estudar mais intensamente estes verdadeiros vestígios históricos. Muitas horas de observação e investigação conduziram-no às origens das relheiras.
O carro de bois foi introduzido na ilha Terceira na altura do povoamento. Este veículo de duas rodas, puxado pelas juntas de bois, tinha múltiplas utilidades, desde o transporte de pedra e monumentos às cargas de lenha, um bem precioso na altura.
Mas esta não era tarefa fácil, devido ao grau de inclinação de muitos dos caminhos. “Penava-se muito para levar um carro de lenha”, conta. “Se fosse a subir, o carro tinha de ser puxado por várias juntas de bois, às vezes até três. Se o caminho fosse a descer era preciso travão. Os bois tinham de ir atrás a puxar o carro”.
Na Canada da Fonte do Cão, são visíveis dois tipos de relheiras, marcos dos tempos em que a agricultura era o pólo central da vida da ilha Terceira. Os primeiros sulcos, mais estreitos e em forma de v, mostram uma longa extensão de pedra picada; os segundos, mais largos e profundos, são completamente planos.
“A minha teoria é que as relheiras maiores e planas seriam resultantes do desgaste provocado na pedra pelas rodas dos carros de bois mais recentes, que têm uma chapa metálica a toda a volta. O metal ao deslizar no basalto formava estes sulcos largos”, explica Brás Barcelos.
“Já as relheiras em v seriam dos carros de bois mais antigos. Das rodas desses carros saíam pregos, que picavam a pedra, dando origem a estes trilhos”, acrescenta.
Segundo o dirigente escutista, este tipo de carro terá sido utilizado até cerca de 1820. “Era uma mania do povo, que achava que a chapa com pregos não resvalava tanto na pedra”, diz.

O fim de uma era


Isso mesmo relata o historiador terceirense Francisco Ferreira Drummond, nos “Anais da Ilha Terceira”. «Duríssimos mármores cortados na beira mar e no centro da ilha Terceira, atestam que sempre a pregadura dos carros foi mais ou menos aguda, a termos de fender esses calhaus e pedreiras: e a desculpa em sustentar um semelhante modelo foi constantemente o afirmar-se que por haverem muitas subidas, ladeiras e até precipícios a subir e descer, melhor o faziam os carros de pregadura alta do que os rasos, e que um carro de chapa rasa não durava a metade de um daqueles, que recebia todos os golpes, e violência das bacadas sobre os pregos encravados uns nos outros».
Este tipo de carro mais arcaico desapareceu completamente. Actualmente, é mesmo difícil encontrar quem ainda guarde um exemplar dessas rodas pregadas, que marcaram por muitos séculos a paisagem terceirense. O destino deste carro de bois foi decidido por um dos Capitães Donatários da Terceira, o General Araújo, que proibiu o seu uso devido aos estragos que provocavam nas calçadas de toda a ilha.
«Mas vendo quanto os carros de pregadura alta e ponta aguda (usados por uma inexplicável mania dos mesmos povos) danificavam, cortavam e destruíam absolutamente as calçadas mais duradouras, ordenou às câmaras que fizessem postura, com o fim de se remover tão prejudicial uso, sob frívolos pretextos cá nas ilhas: e achando que era uma luta interminável, pois de todos os modos e maneiras se estudava por iludir as suas ordens, sem aparecer emenda alguma, fez com que se usassem meios violentos para se conseguir o necessário fim», conta Drummond.
O episódio que pôs fim a este tipo de veículo, cujo ano não é possível precisar, é descrito pelo historiador como um momento dramático para o povo da Terceira.
«Em dia da Santíssima Trindade, à mesma hora em que se andavam dando os bodos do Espírito Santo, mandou por toda a ilha diferentes executores, que acompanhados de escoltas de soldados procederam ao desferramento de todos os carros, que não estavam nas proporções do modelo por ele recomendado muito antes. Em presença de tão estrondosa campanha, e em dia tão assinalado, murmurou-se altamente contra um tal governo, acumulando-o de afrontas e pragas as mais feias e denegridas, pedidas com torrentes de lágrimas e soluços, atribuindo-lhe também nisto o sacrilégio de profanar com tão escandalosa operação, e pouco respeito, um acto de tanta edificação pública, costume sempre acatado e recebido pelas autoridades com veneração; por ser uma antiquíssima instituição de nossos maiores, com princípio em Portugal sob remotas eras, e que por isso mesmo não merecia aquele abandono.»

Testemunho dos tempos modernos


A frescura da vegetação e os perfumes da fauna endémica, como o Louro ou a Faia da Terra, invadem os sentidos. As relheiras convidam a uma viagem pelos caminhos da história, pelos tempos em que a vida das gentes se misturava com o cheiro da terra e do pão acabado de cozer.
Mas a Canada da Fonte do Cão esconde também outro cenário menos aprazível. Aqui e ali, surgem sacos de lixo, restos de plástico, metal, pneus gastos ou electrodomésticos fora de uso. Um testemunho dos tempo modernos.
“Isto é falta de civismo das pessoas”, classifica Brás Barcelos. O dirigente escutista debate-se há já algum tempo pela preservação deste local. Tem desenvolvido acções de limpeza com os escuteiros e jovens do Programa de Ocupação de Tempos Livres (OTL-Jovem), mas as soluções definitivas tardam em chegar. “Sem limpeza frequente e preservação isto volta a encher tudo de lixo”, explica.
Brás Barcelos encetou contactos com os Serviços Florestais da Terceira, a quem pertence toda aquela área, e com Francisco Maduro-Dias, historiador e director do Museu de Angra. O objectivo seria transformar a zona das Relheiras do Baldio em Reserva Natural, consagrada no Plano Director Municipal da Praia (PDM) da Vitória, actualmente em fase de discussão.
“Era importante que ficasse consagrado no PDM como local a preservar, sem lixo ou agricultura”, considera o dirigente escutista.
“As autoridades já estão sensibilizadas. Mas é difícil dar origem a qualquer projecto, porque este espaço envolve diversas entidades, todas elas sem grande autonomia financeira”, acrescenta.
Contactado por DI-Revista, Francisco Maduro-Dias manifestou a disponibilidade do Museu de Angra em colaborar na salvaguarda e dinamização daquele espaço. Um parque aberto ao público, com percursos biológicos e culturais é uma das ideias do historiador. “O ideal seria criar um núcleo de salvaguarda, utilização e definição do património natural e cultural da zona das Relheiras do Baldio”, sublinha.

Local de estudo


O “XI Jamboree”, encontro regional do CNE terá lugar, no próximo ano, na ilha Terceira. O local escolhido para o evento foi precisamente a zona das relheiras, na freguesia de S. Brás. Esta é uma das últimas esperanças de Brás Barcelos para despertar toda a comunidade e os poderes públicos, em particular, para a importância deste local. Antes que a natureza e sobretudo a acção do Homem façam desaparecer para sempre um testemunho de séculos. “Vamos realizar algumas actividades de limpeza aqui e esperamos chamar a atenção para esta zona”, refere.
O dirigente escutista tem projectos concretos para transformar as Relheiras do Baldio num local de estudo e numa atracção turística. “Penso que isto teria interesse para as escolas. Para que os alunos percebessem a vivência das pessoas de antigamente e estudassem as plantas endémicas”, afirma. E acrescenta: “A minha ideia, para preservar e evitar a degradação das relheiras, seria abrir um caminho paralelo a cerca de 200 metros e manter aqui apenas a fauna endémica. Mas só o CNE não consegue”.

A Fonte do Cão

“Um capricho da natureza”


A Canada da Fonte do Cão deve o seu nome a uma fonte onde os cães dos lavradores costumavam ir beber. Desengane-se contudo quem espera encontrar uma grande nascente. A Fonte do Cão é uma pequena cavidade aberta no caminho sempre cheia de água. Obra do homem ou acção da natureza? Brás Barcelos não tem dúvidas: “É um capricho da natureza”.

Sem comentários: