quinta-feira, 13 de dezembro de 2007

No Campo do Imaginário

Às vezes quando a nossa imaginação nos prega uma partida e parece que nos abandona, heis quando algo desperta em nós.

Hoje acordei com uma história que um dia li, de um grande amigo meu, do Lucas, que contava do seu primeiro amor, único, de infância! Mas verídica por aquilo que entendi, o que muito me enterneceu.

Assim acordei hoje com um pequeno conto na minha cabeça – quero já escrever antes que esqueça ou não tenha tempo!!!!

Tudo começou no imaginário.

Em vez de começar aqui “ Era uma vez...” , pois começarei: “ No campo do imaginário!” – assim até soa diferente!

Bem, sendo o campo em que nos encontramos, já daqui podemos imaginar o que quer que seja, de belo, de feio, de Bela e de Monstro, de João e do Pé de Feijão, de Alice no País das Maravilhas. De qualquer maneira tentarei ser uma historieta que se possa contar para uma criança ler.

Foi então No campo do Imaginário que o Paulo e Flória se conheceram.

Flória - triste nome por insistência da sua mãe – nome da protagonista da ópera Tosca-de Puccini (independentemente do fatalismo a que estava reservada a protagonostista). Enfim – que se salve a música e sua arte, que os seus protagonistas serão sempre segundários – mas então porquê chamar-lhe o fatídico nome de Flória? – uma desgraçada que se suicída por amor? Ditosa mãe! Poderia ter-lhe chamado directamente Tosca e já prestava a sua homenagem a Puccini – linda ópera sem dúvida. Enfim. Não vamos por aqui! Que o caminho tem desvios.

Conheceram-se assim, em país de Oz, perdidos no meio do nada, entre a serra e a cidade, quase qual Pedro e a Heidi – não sei se aqui havia avôzinho e cabrinhas, mas não será difícil inventar mais estes dois personagens – posso é perder-me no campo da minha infância!

Seguindo.

Como qualquer conhecimento que começa, chega-se ao ponto de dúvida, que há quem chame o ponto de não retorno – aquele em que Paulo começou a pensar que poderia perder a amiga se avançasse; e se não avançasse, talvez nem com a amiga ficava! Mas afinal qual amiga, se as férias foram tão curtas, Flória regressou por obrigação à cidade – assim obrigou à realidade - Paulo, homem do campo, no campo ficou, e assim a vida continuou.

Afinal afinal, “oh mulher, Então! Então!, vim buscar o algidar então, e fico sem o alguidar então!” – pois.

O que acontecia a uma vizinha lá da terra dos meus pais. Quando precisava pedir algo emprestado , lá ia mas perdia-se na conversa e alguém se lhe adiantava... ficava a pobre sem o propósito da visita! – mais um considerando e siga a historieta!

Pois é. Flória não estava no campo mais que em imaginário – naquele espaço de férias que passam tão rápido que quando acabam se pensa “Olha... já venho da festa!!!!!”

E foi nesse imaginário mesmo assim que muito eles, esse imaginário casalito, conversaram, sabendo que a despedida não tardava nem perdoava e que cada um a seu porto e destino.

Aproveitavam cada momento às escondidas, à surrapa dos avós, para conversar, contar as suas histórias, aventuras, os seus segredos, ambições, planos – sim, que Paulo também queria dali sair – ficar a “guardar cabras” não era sua vocação de sangue! Voava muito ele. Era um viajante por natureza. Tinha dentro dele um tapete mágico. Saía com ele, levava Flória e lá iam, de terra em terra. A que ela mais gostou foi da América do Sul. Alguns anos mais velhos que ela, ainda se atreveu a contar das “Pocahontas” que conheceu em aventuras pela selva! Aquelas que Flória imaginou como as verdadeiras Pocahontas! E teve ciúmes! E corou!

Paulo era bom contador de histórias – assim o tempo era fácil de escoar-se ao seu lado. Quando davam por elas... ops! Já se fazia tarde! Um para ir a correr para os ralhetes do avô; o outro porque tinha que se levantar cedo! Se um estava de férias, o outro não!

Também tinham mau feitio. Os dois, acho. Era tão pouco o tempo e chegaram a discutir. Imaginem. Quem é que, em férias, quando já o tempo urge, ainda tira tempo para discutir – e ficar uns dias para “amuar”!!

“Amuar” é palavra forte – mas chegaram a ficar sem se falar por uns dias. Acho que a culpa foi dos dois. Que se conte por aí: não há um teimoso sozinho.

Tudo porquê?

Porque Paulo obrigou Floria a parar para pensar e lhe disse que ela era uma moça de cidade que ia de férias à província, mas que não passaria disso, porque aquela não era a sua vida, e para ele não deixaria de ser mais uma moça da cidade que foi passar férias à província! – Isto bem vincado, atenção!

E o que mais doeu à menina – é que tudo era bem verdade. O lugar dela não era ali. Ele sabia e ela também. Apenas teve que ser verbalizado. Ela teve vontade de subir ao alto de um monte, ao alto do seu maior rochedo e gritar de pulmões bem abertos, para que o eco devolvesse e prolongasse quase para a eternidade as palavras, mesmo quando já não se querem ouvidas... para não as esquecer nunca nunca mais!

Já agora – e porque estamos no imaginário – ela desejou o maior rochedo do mundo!

Conhecimentos, paixões, entusiasmos de férias – quem os não tem?

Depois vem a teimosia e se a cidade do campo eram longe, ficaram a parecer ainda mais longe.

Veio a pergunta – afinal, quando me vens ver?

E a resposta não podia ser mais lógica nem honesta - até porque Flória não era menina de promessas vãs:

“ – Já há neve na serra?

E Flória começou a imaginar o tempo real: Terá cair muita neve primeiro, virem os primeiros raios de sol, derreter essa neve e no meio dessa pedra granítica aparecerem as primeiras flores, quem sabe não cairá de novo neve e todo se repetirá! e então quem sabe... um dia, eu voltarei... ou não...””

Flória foi sincera – explicou-lhe um ciclo de evolução de nascer e morrer porque é assim que a vida funciona.

Ele tinha sido duro com ela. Tinha-lhe dado uma lição – quem sabe aberto os olhos – “não me tires do meu habitat porque eu estou bem assim e assim quero bem estar – n mexas comigo!” – foi quase o que lhe disse.

De verdade que somos muito pequeninos. A nossa vida é muito curta e temos muito que aprender. Para aprender tudo o que precisamos, necessitaríamos viver muito, mas muito mais. Mas é assim, vivendo, conhecendo pessoas como Flória, Paulo, que vamos aprendendo que de facto, no campo no imaginário ou não, cada um tem o seu lugar a ocupar. Isso é certo. Mesmo voando com tapetes persas sob o mundo, em planos imaginários, trocando experiências da cidade para o campo, do campo para o mundo, de uma pessoa para a outra, Vale a pena e Floria não terá o destino que Puccini lhe deu na sua ópera! Será bem mais feliz. Um nome é um nome. Sua mãe tinha bom gosto. E afinal... Paulos... há muitos e férias também!

Sem ofensa ao Paulo “pastor” da minha historieta.

Mesmo que mude de lugar, imaginário ou não, tempo e espaço, o SEU lugar é aquele -alea jacta est.

A.

1 comentário:

Rubim disse...

Consta que todas as pessoas que se cruzam no nosso caminho trazem uma mensagem (in Profecia Celestina)...

gostei da historia.