23.12.2007
Mal acordo e mal acordada ainda, ponho os pés no chão. Estou em casa dos meus pais, na ilha.
Vou até à janela. Uma chuvada forte bate na vidraça e assusto-me. Olho melhor e afinal é mesmo o mar, que galga já o caminho e que lava as janelas, deixando o seu rasto de rossio. Fui eu que despertei Neptuno ou ele que me despertou a mim?
Sobressaltada. Uma mão amiga que me acorda. Já é tarde e temos pressa.
Apercebo-me de onde estou e fico feliz. O cheiro já me é familiar. Ou sempre me foi desde que naquela terra pus os pés pela primeira vez – há coisas que não se explicam. Cheiro a terra mãe.
Tomo um banho de água fria (água quente é um luxo a que não nos damos) mas nem me importo apesar do frio que faz às 6:30 da matina. Secar o cabelo não carece. Visto umas calças, uma simples camisola, ténis para a caminhada e saio à rua.
No ar um som estranho ao que pergunto
- “Que barulho é este?”, ao que simplesmente me respondem: - “ Sons de África!”!
Deliciada, de olhos bem abertos olho à volta, a tudo quanto a minha vista pode abarcar e ainda se deslumbram restos da noite africana, fumarolas vindas de aldeias, de palhotas, quem sabe de alguma festa!
Nesta terra é como todas as outras – quando dia acaba para muitos e cai a noite, é quando começa para outros tantos e a vida não para nunca!
Fazemo-nos ao caminho e já não somos os primeiros. O estrada principal fervilha de vida em plena manhã de Domingo.
Fazemos 45 minutos de marcha apressada para assistir a uma missa, metade em português, metade em dialecto local. A igreja está cheia, de pessoas e de vozes que cantam e oram. Ninguém está ali com indiferença. Sente-se realmente que a vida fervilha.
Terminada a cerimónia, fazemo-nos de novo à estrada e eis que passa uma pessoa conhecida, numa carrinha de caixa aberta. Para para nos dar boleia. Mas ali quem dá boleia a duas pessoas dá a três, quatro, cinco, a quantos lá couberem, ou não couberem mesmo!
Quem ali está, quem ali vive, tem de fazê-lo por gosto.
Tem de entrar no ritmo da terra. Já nem sei se são as pessoas que deram ritmo à terra, se foi a terra que deu o ritmo às pessoas. Mas tem o seu ritmo, tem o seu modus operandi e tudo isso tem de ser respeitado, com muito respeitinho mesmo. É como amar alguém. Há que fazê-lo com todas as suas qualidades e defeitos. Não há nada perfeito. Nada mesmo.
O pouco tempo que lá estive vivi-o. Amei-o. Porque o respeitei, terra e pessoas.
Pretendo lá voltar e depressa.Tenho saudades.
Desde que acordei com o mar na janela até agora não sei quanto tempo passou. Encontro-me ainda de pijama, chávena de café na mão, olhar perdido numa peça de artesanato africano, e o meu pensamento lá longe longe...
Já estou na segunda fase, à espera de boleia para atravessar para a ilha de Moçambique, e enquanto espero, é lusco-fusco, há pobreza e alegria, temos batuque, dançamos kuduro...
A.
Sem comentários:
Enviar um comentário