quarta-feira, 19 de dezembro de 2007

Insónias

19.12.2007

Quantas noites de insónia.
Já digo meio a sério meio a brincar que tenho anos em déficit de sono de tantas noites mal dormidas!
As minhas noites são aventuras. Se soubessem. Se cá entrassem!

A minha cabeça é como o mar mais profundo. É como a caverna do Adamastor onde me assusto quando espreito; é como o palácio da pequena sereia, seus amigos, inimigos, o enredo da sua vida e toda a sua fantasia; é como encontrar sem querer ao virar de uma almofada uma gruta cheia de tesouros, baús de matérias reluzentes, guardados por piratas, depois esquecidos ou perdidos. Meia volta, volver a almofada e ando mentalmente a rever as minhas leituras, onde mergulho e absorvo estórias como se minhas. Pois... uma noite para acabar de ler Madame Bovary... duas noites sem dormir por ter lido a Madame Bovary, de tão impressionada fiquei! Acontece... pelo menos a mim...

Algo de semelhante me aconteceu com o filme “O Expresso da Meia Noite” – acresce mais um par de noites de olho esbugalhado!

E justamente a somar estas noites que...
Ao virar de outra almofada e estou a navegar em planos de vida, feitos com a precisão de ponto cruz, no seu verso, com a prova dos 9 e o teorema de Pitágoras. O que fiz, o que tenho que fazer, bem feito, mal feito.

Ora meus senhores, de verdade que assim, e por esta ordem de raciocínio mental, ou melhor, a esta velocidade de raciocínio, como bem podem imaginar, – ninguém dorme. O pior – é que de tudo isto não tiro grande proveito, o que me deixa de rastos.

Enfim...

Viajo onde me leva a imaginação, vou onde já fui, Tudo. – e acordo cansada!
No meio deste sonambolismo, dou por mim a espreitar por uma janela. Estou sentada junto a uma janela típica da traça da casa portuguesa - de vidrinhos pintada de verde e com portadas verdes. Olho para dentro encontro-me num sítio especial por si mesmo. Por todos os que já lá passaram, que deixaram o seu testemunho, que se sentaram naquelas cadeiras de madeira já um bocado carcomidas. Não pelo caruncho, mas pela história.

Muita roupa ainda molhada de mar,
sim, água salgada que ali se sentou à procura de abrigo, calor, ou de uma carta por alguém deixada, encomendada e depois procurada. Tradição de décadas, criada para facilitar a vida aos marinheiros que ao cruzar ao Atlântico ali encontravam um porto de abrigo, e uma casa amiga que servia de tudo, até de correio.

O tecto, paredes, cheios, apinhados são bem exemplos dessas passagens. É suor que ali está.

O meu suor é outro,não venho do mar, venho do ar. Apenas ali aterrei.

Espreito novamente pela janela e eis que a montanha se deixa ver. Umas nuvens ao seu redor – sinal do seu temperamento, e há neve! Vem-me um sorriso grande à cara e à alma. È sinal de frio, mas fica mais bonita. A neve escorre-lhe a compor as suas rugas até ao sopé. Continua bonita sua magestade.

Bem

Está na hora.

Não quero perder o barco.

Quero ir recuperar as minhas horas de sono perdidas para terra materna

A.

1 comentário:

Anónimo disse...

Continua a soltar cá para fora o que te vai na alma, sem nunca te esqueceres da tua terra materna!