04.06.2008
Acordei a escrever.
Uma Cahora Bassa de pensamentos já a preto e branco, ainda sem forma, quase sem estrutura a querer saltar. Parecem estar presos há muito cá dentro. Muito tempo a olhar para... não sei bem o quê, ou talvez não queira dizer.
Não tinham batido ainda as seis badaladas da matina e foi assim que já tinha os olhos abertos ao dia.
Se é assim que os artistas acordam, entre outros entes de Cristo, já sei o que quero ser quando for grande – artista escritora mas não loira. Com todo o respeito que as loiras merecem. Pois isso significaria que os meus princípios se foram como a chuva pela terra mais sedenta. O meu cabelo é castanho escuro e quando os brancos nele ganharem terreno, quero-o bem curto, assumi-lo branco, a minha idade e “posto” como tal.
Assim, e voltando atrás – artista mas não loira nem platinada.
Enquanto o meu computador faz uma birra e tenho que lhe dar uma dose de cafeína em formato de actualização de antivírus e reiniciação, garatujo para não perder a “musa inspiradora” (seja ela qual for), na primeira folha de papel que me vem à mão. Primeira música que ouço – música sertaneja. Não está mal. Um pouco saudosista. Mas também eu sou assim. Penso, lembro, relembro. Algumas vezes com saudades. Mesmo de histórias que não vivi, que me foram contadas por avós, mas que as tomo como vividas.
O que vivemos não é para ser esquecido mas sim para ser lembrado e aprendido para dias futuros. Há sempre algo a aprender.
“Garrafa meio vazia – garrafa meio cheia”. Como me foi explicado um dia. Sempre podemos olhar para essa garrafa de duas maneiras: Vê-la meia vazia é ver o menos bom que vivemos. Olhar para ela meio cheia – é ver só o bom que vivemos. E assim a vida é feita.
Vale sempre a pena e ainda bem que hoje é dia de sol. Se fosse dia de chuva, eu poria o meu sobretudo, o meu chapéu, e alguém me chamaria de Audrey Hepburn (a modéstia não é o meu forte!)
“Essa caneta é para que a uses nos teus escritos”
Pois sim. Agora acabo de pegar numa folha de papel, decente, e na MINHA Montblanc. Afinal, não é qualquer um que tem uma destas. Melhor. Esta mais ninguém no mundo a tem. O que faz de mim duplamente uma pessoa especial.
Perguntou-me um dia certa pessoa – “Consegues tudo o que queres?”, e eu simples e honestamente respondi: - “Não, mas tento sempre!”. Esta não é mais que uma atitude honesta e legítima da minha parte.
Não recuo face a uma guerra, mas mandar recuar as minhas tropas numa batalha poderá ser uma manobra de estratégia. Nem sempre é necessária uma luta sangrenta e desnecessária com mortos e feridos. E o saber retirar com dignidade, considero-o uma virtude.
“Aproveitar a garrafa meio cheia” – as manobras bem feitas já são momentos de glória por si só.
Quando não há sol, haverá sempre uma lua a espreitar algures. E se não a vemos, então é porque não a vemos bem. Comprem um postal, uma foto. Ela está lá. Algures.
Se o Sol é portador e transmissor de energia e vitamina, já se deixaram envolver pela luz de um momento de um pôr do sol? Ou da luz da lua? Não é à toa que os nossoa antigos tanto referem as mudanças da lua para tantas coisas. Pois eu também sinto a Lua em mim.
E o melhor é não falar de tristezas que atrai azares. Diz Mia Couto num dos seus contos (Terra Sonâmbula) que “em terra de cego quem tem olho fica sem ele” – é mais ou menos assim numa sociedade que se torna cada vez mais mesquinha em relação a tudo. Mas como Tudo, existem sempre as excepções. E as coisas só serão efectivamente assim com a nossa concordância. Se nem para a Lua quizermos olhar...
Eu vou olhar para a minha Lua e partilho-a com quem dela precisar e não a vir.
A minha loucura?
Pois está aqui uma pequena prova dela. Quem sabe um dia não serei declarada inimputável e irei rir-me às gargalhadas para o "Júlio de Matos", só porque insisto em dizer que "tenho uma Lua"?
Dirão antes que "sou de luas"!
Olho para a minha vida e vejo o caos organizado que eu mesma organizei, com todo o cuidado. Sempre. Cada peça movida por mim. Como um jogo de xadrez. Do outro lado não sei bem quem joga. Alguém também. Ningém está só. Poderá ser apenas a minha consciência e já é tamanha parceira de “jogo”! Consciência de mim! Não aprecio muito quando aquela me chama à razão, mesmo quando a tem. Gosto da minha parte de loucura e devaneio! Lá está!
Partidas da consciência – quem tal a inventou... Dá-me a sensação que me leva sempre a melhor. O Inconsciente, sub-consciente? E eu sei lá. Nem a dormir me dão descanso. É que eu não desligo. Não sei o que é dormir. Gasto mais energia a pensar do que a que posso pagar – embora possa não parecer, mas não se iludam. É incrível o que a nossa mente faz para no fim, a maior parte das vezes... tão pouco proveito!
Assuntos pendentes: tenho - Acho que sempre terei. O meu lado perfeccionista nunca dá nada como acabado. Falo aqui de trabalho, de tempo lúdico. Acho sempre que poderia ter feito melhor.
Uma simples planta ao meu cuidado e eu penso que essa planta poderia ser mais feliz e estar mais bonita com mais ou menos água! É a minha loucura a falar! Só pode ser loucura.
Um livro – leio-o. Penso que terei que ler de novo, que a sua mensagem não a apreendi bem com a primeira leitura.
Esta mesma escrita... será sempre infeliz e incompleta...
Por esta ordem de pensamento, será que me dou sempre por apenas meio feliz?
Não.
Tenho tido os meus grandes momentos de felicidade. Se olho para eles com saudade por algum motivo é. E não é meia felicidade. É FELICIDADE. Pena que isso não acontece quando nós queremos, mas quando damos conta, ela lá esta, proporcinada, e também por nós. Os pequenos momentos depois são grandes momentos. São a minha Lua quando não vejo o Sol.
Será apenas, mas apenas, parte da minha loucura.
A.
2 comentários:
por fin literatura suicida en portugués... a ver si recupero un poco de idioma ibérico.
beijinhos.
parabéns pelo texto, está muito bem conseguido.E sim parece-me que a garrafa meio vazia e a meio cheia faz parte da vida de cada um de nós...ah e parece-me que ambos gostamos de canetas, eu também escrevo muitos textos á mão com a minha caran´dache.
best regards
Shagrath
Enviar um comentário